“Não adianta execrar todos na política; isso só é bom para quem é ruim”, diz diretor do Ranking dos Políticos

 



SÃO PAULO – A revolta com os políticos é grande – e a possibilidade é de grandes mudanças nas eleições de 2018. Mas afinal, com todos os políticos sendo mal vistos pela população, como diferenciar os bons dos ruins?

Para ajudar os eleitores nessa "empreitada", foi criado o Ranking dos Políticos, uma ferramenta que monitora a atividade parlamentar, concentrando-se nas ações dos deputados federais e dos senadores. Em entrevista ao Podcast Rio Bravo, Renato Dias, diretor executivo do ranking, apontou que "não adianta execrar todos os políticos, colocar todos eles no mesmo saco e dizer que nenhum presta. Isso daí só é bom para quem realmente não é um bom político. Ele se beneficia desse tipo de generalização".

Durante a entrevista, ele falou não apenas sobre a origem da ferramenta, como também destaca as características do funcionamento do ranking. “O critério que nós utilizamos para definir se uma votação é boa ou ruim está relacionado a quanto isso contribui para o combate à corrupção, para o fim dos privilégios e para o fim do desperdício da máquina pública”.

Dias comenta as ações propositivas que serão encaminhadas com o apoio do Ranking dos Políticos: “Nós vamos divulgar uma agenda propositiva para que o Brasil possa entrar num ciclo de transparência, comprometimento e representatividade no Congresso”. Confira a entrevista: 

Rio Bravo: Como surgiu a iniciativa do Ranking dos Políticos?

Renato Dias: O Ranking é uma iniciativa particular de dois empresários que tiveram a ideia de fazer uma ferramenta para acompanhar o desempenho de senadores e deputados federais. Eles estavam muito insatisfeitos com tudo o que acontece no Brasil, uma coisa que já vem de alguns anos, e tiveram a ideia de criar um site onde você tem todas as informações mais relevantes sobre deputados e senadores – o quanto eles gastam da cota parlamentar, o quanto eles faltam nas sessões, se eles têm processos judiciais e comos votam as principais leis.

Colocaram tudo isso num lugar só, no site do Ranking dos Políticos, para ser uma ferramenta e ajudar a população a ter essa informação de uma forma mais organizada e mais fácil de acessar.

 Rio Bravo: Então essas informações já estavam disponíveis? Como o Ranking funciona?

Renato Dias: As informações são disponíveis. Elas estão presentes no site tanto da Câmara quanto do Senado. Mas não é uma coisa tão intuitiva. Você tem que saber exatamente onde estão os links, acessar páginas que muitas vezes estão um pouco escondidas.

A ideia do Ranking é justamente tornar isso mais fácil. Você entra no portal e tem de uma forma organizada todas essas informações num só lugar e você consegue comparar de uma forma mais fácil também a atuação de cada político. No Brasil, essas informações estão nos sites, mas a nossa ferramenta torna isso muito mais fácil para que o cidadão comum consiga acessá-las.

Rio Bravo: Embora vocês não sejam filiados especificamente a nenhuma bandeira partidária, está claroque há um descontentamento, para dizer o mínimo, com o establishment político que hoje ocupa o poder. Não há receio de que, com o Ranking, haja uma espécie de força para esse clima de descrédito da política enquanto atividade necessária da administração pública?

Renato Dias: A gente acredita que a única maneira de mudar todo esse cenário que você comentou é através da política, não tem jeito. A gente pode ficar reclamando, escrever textão no Facebook, comentar em grupo de WhatsApp, nada disso vai fazer a coisa mudar. A gente precisa mesmo de ações e de participação política da população. Isso é que faltou durante muito tempo no Brasil. Cada um tocou a sua vida e deixou um vácuo nesse interesse pela política, e aí as pessoas que ocuparam esse lugar nos trouxeram até onde a gente está hoje.

Então, o Ranking tem a intenção de botar a pauta da política nas conversas das pessoas comuns, trazer esse interesse maior e o acompanhamento da atuação dos políticos. O parlamentar – e o nosso site trata apenas de senadores e deputados federais – passa a ficar no radar do cidadão comum. O brasileiro tem muito na cabeça quem ele vai votar para prefeito, para governador e para presidente – então o Executivo sempre foi muito exposto para todo mundo e esteve presente na cabeça de todo mundo. A nossa ideia é trazer isso também para o Legislativo, que tem uma importância que foi subestimada até hoje.

São eles que fazem as leis, que fazem votações como do impeachment, de investigações. Então a nossa ideia é trazer isso para que a verdadeira mudança aconteça e não fique só na conversa de boteco, na indignação virtual, mas tenha uma ação real para que o Brasil possa evoluir nesse sentido.

Rio Bravo: E quais são os políticos que se saem melhor de acordo com as métricas do Ranking? Será que você pode explicar um pouco como isso funciona?

Renato Dias: A gente avalia a questão dos gastos; da presença, que é algo básico, mas tem que ter e é uma pontuação que não pesa tanto assim na nota final, mas tem o seu peso. Também tem a questão dos processos judiciais: é muito importante ter uma ficha limpa e também olhar a maneira que ele vota nessas principais votações. Tem critérios que são claramente objetivos, que são a parte dos gastos, das presenças e dos processos, e um que você pode ter até uma opinião diferente daquilo que o Ranking considera o correto, que é a parte das votações, mas, enfim, a informação está lá.

Você pode discordar de uma ou outra votação, de uma ou outra pontuação que nós demos nesse sentido, mas é tudo feito de uma forma muito transparente. O critério que nós utilizamos para definir se uma votação é boa ou ruim, se uma lei vai ajudar ou não o país, é o quanto ela contribui no combate à corrupção, no fim dos privilégios e no fim do desperdício da máquina pública. Juntando todos esses critérios, haverá uma classificação do melhor para o pior, segundo esses critérios, e isso está disponível no site para consulta da população.

 Rio Bravo: Levando em consideração as características do Ranking, é correto afirmar que o nível de atuação que se espera dos parlamentares seja mais sofisticado no médio e no longo prazo?

Renato Dias: O momento nunca foi tão propício para isso. O brasileiro em geral nunca esteve tão ligado nesse assunto e, com a ferramenta, o que a gente está percebendo de uns tempos para cá é a proatividade dos parlamentares nos procurarem para entender como funciona, para saber como eles podem melhorar, que tipo de projeto é valorizado pelo Ranking.

Então, eu sou otimista em relação a isso. Em 2018, temos uma oportunidade como nunca antes nesse país. Uma frase que ficou marcada nos últimos anos, mas realmente que dessa vez a gente tem, é a chance de ter uma renovação.

E uma renovação não apenas quantitativa, porque o Congresso, se você olhar historicamente, ele até que se renova. Se não me engano, em torno de 40%, no mínimo, é o que tem de mudança dos parlamentares, de senadores e deputados. São pessoas que saem e entram outras pessoas, não são reeleitos. Mas o que importa é a gente renovar o perfil dessas pessoas, a qualidade delas, no que elas acreditam e como elas trabalham. Não adianta trocar 40-50% do Congresso para colocar no lugar pessoas com o mesmo histórico, das mesmas dinastias. É essa mudança que nos dá esperança de que no futuro próximo ou pelo menos no médio prazo a gente tenha uma qualidade melhor dos nossos representantes.

 Rio Bravo: E como é que vocês pretendem fazer para as pessoas acompanharem o Ranking dos Políticos durante o período eleitoral de 2018?

Renato Dias: A gente tem uma atuação muito forte já hoje nas redes sociais. O nosso Facebook, por exemplo, está com 800 mil seguidores e com bastante envolvimento nas postagens. É algo que a gente sente um retorno por parte dos seguidores. Para a eleição especificamente do ano que vem, a gente está com dois projetos muito focados em relação às candidaturas. Um deles é o "Tchau, queridos", uma iniciativa em conjunto com o Mude e com o Vem Pra Rua. Inclusive, houve um lançamento oficial desse movimento recentemente em Brasília, lá dentro do Congresso.

O Ranking vai ser utilizado como fonte de informação para formar uma lista de caciques, políticos que a gente não gostaria de ver reeleitos na eleição de 2018. E você vai ter ali informações, fatos consumados, não vai ser uma questão de opinião, de "eu não gosto desse" ou "eu gosto daquele".

Nós vamos divulgar informações sobre esses políticos: "olha, ele votou dessa forma, ele tem esses processos que está respondendo na Justiça, ele gastou tantos mil reais com a cota parlamentar”… vai deixar de ficar escondido e haverá um trabalho muito forte com a capilaridade dessas instituições que eu citei – o Ranking, o Mude e o Vem Pra Rua – para que a população tenha acesso a isso e aí sim faça essa renovação qualitativa que eu comentei.

Um outro projeto é a "Frente pela Renovação", que aí seria uma lista positiva. Seria reconhecer bons trabalhos e boas opções de voto para 2018. Também é uma iniciativa com outras entidades, o Vem Pra Rua também é uma delas. Nós temos o Irice, que também faz parte disso, e a Aliança Brasil também é uma entidade que está envolvida na "Frente pela Renovação". E aí nós vamos divulgar candidaturas e uma agenda propositiva para que o Brasil entre em um ciclo de transparência e de maior comprometimento e representatividade da população no Congresso. Esses são dois projetos novos, além, é claro, do Ranking tradicional, que vai continuar existindo. Tem uma outra ferramenta que também ajuda nesse sentido, que é a premiação que a gente faz.

Agora em novembro foi entregue lá em Brasília, numa cerimônia, um prêmio para os 30 melhores parlamentares do ano de 2017, porque é importante ressaltar os bons exemplos. Não adianta, como eu disse no começo, execrar todos os políticos, colocar todos eles no mesmo saco e dizer que nenhum presta. Isso daí só é bom para quem realmente não é um bom político. Ele se beneficia desse tipo de generalização.

A partir do momento que você fale "Esses aqui são bons exemplos", você vai valorizar, vai reconhecer esses bons trabalhos, que existem sim e o Ranking tem essa função de apontar quais são esses bons trabalhos, e vai incentivar para que pessoas de fora da política tenham uma razão de querer entrar. Porque ninguém vai querer entrar em um grupo que vai ser tachado de ladrão a partir do momento que você diz que é um político.

Rio Bravo: Em um momento em que há tanta polarização no debate político, dá para concentrar esforços em uma abordagem propositiva, que você tinha mencionado agora na sua última resposta, em relação às questões que precisam ser encaminhadas ao Congresso? Isso porque, apesar de toda essa discussão em torno das atuações dos parlamentares, existe sim um fator ideológico no voto de alguns partidos. Você não acredita que, principalmente agora, haja uma tendência de dispersão maior dos candidatos exatamente por conta desse perfil ideológico? 

Renato Dias: É, estamos em um momento fervilhante nesse sentido. Por um lado, você tem os extremos atuando de uma forma muito relevante. O perigo que acontece quando esse é o cenário é você sequer ouvir o outro lado, você não consegue convergir em coisas que poderiam ser pautas comuns.

O grande desafio de ter as proposições e chegar com propostas para apresentar daquilo que você gostaria é saber conciliar, não ser fechado para certas questões que você não quer ouvir e que não quer fazer concessão nenhuma e, ao mesmo tempo, também não ser algo muito generalista que qualquer pessoa pode assinar. Dizer que é contra a corrupção, e essa é uma bandeira, vai ser uma bandeira que será adotada por qualquer partido. Apesar de na prática a gente ter péssimos exemplos, todo mundo vai dizer que assina esse compromisso. "Eu sou contra a corrupção, eu sou a favor do crescimento econômico". Todo mundo vai dizer que é, o importante é você dizer como vai fazer isso.

O grande desafio de fazer uma agenda propositiva é não ser tão detalhista e específico nessas propostas a ponto de deixar de fora muita gente, porque às vezes pode ter uma discordância em relação a um ou outro ponto, e também não ser completamente inclusivo com esses exemplos que eu dei, porque aí é uma agenda sem valor nenhum, que não vai te diferenciar de tudo aquilo que já existe até hoje. Os extremos devem ser trabalhados de uma forma que não destruam uma possível composição de proposições e com esse cuidado que eu comentei de não abraçar todo mundo e não se posicionar. É importante sim se posicionar, até para mostrar no que você é diferente do resto e aquilo que você pretende.

Rio Bravo: Tomando como gancho essa última parte da resposta, o Ranking dos Políticos não se posiciona em relação a temas como aborto e identidade de gênero, entre outros. Ainda assim, são esses os assuntos que norteiam a agenda de uma parcela significativa dos parlamentares, assim como dos eleitores. Você não acredita que haja uma preocupação de parte do eleitorado que é legítima e que pode decidir as eleições?

Renato Dias: Nós acreditamos que essas questões são legítimas sim, elas têm a sua importância. Não diminuímos a importância desses exemplos que você citou. No que nós acreditamos é que existem outras pautas, hoje, que são mais prioritárias para o Brasil tratar. Num momento em que 40-50% da população não tem acesso a saneamento básico, é esse tipo de coisa que tem que estar urgente para ser resolvida.

Questões de gênero, posição em relação a aborto, tem muita coisa que são posições pessoais, que cada um vai ter a liberdade de se posicionar em relação a isso, mas que muitas vezes acabam colocando um contra o outro e tiram o foco dessas questões mais urgentes do país. Nós temos uma burocracia sufocante que impede o empreendedorismo de florescer… o brasileiro tem essa coisa de trabalhar, criar e ser criativo, mas muitas vezes não consegue fazer nada disso, porque a estrutura do ambiente de negócios não permite. Regulamentações excessivas… Enfim, tem muita coisa que hoje é o que trava o crescimento do Brasil e muitas vezes cria também a oportunidade de a corrupção acontecer. A corrupção acaba sendo muito mais um sintoma, um resultado desse sistema e dessa estrutura que existe hoje do que um problema em si, que pode ser combatido de uma forma objetiva.

Muitas vezes esses outros temas, que obviamente têm a sua importância, acabam sendo usados por partidos e por lideranças que querem fugir dessas questões mais urgentes e importantes justamente para criar esse embate. Você coloca homossexuais contra heterossexuais, negros contra brancos, homens contra mulheres, ricos contra pobres, enfim, tira o foco daquilo que realmente são pautas comuns a todas essas pessoas para ficar tentando de uma forma representar grupos específicos, se garantir no poder e criar um ambiente que vai criar uma guerra entre dois lados, que não existe. Estamos todos do mesmo lado, deveríamos estar todos do mesmo lado, buscando essas pautas comuns. E, obviamente, você tem que tratar todos de forma igualitária, você não pode ter preconceitos, nenhum tipo de discriminação, nessas pautas todas, mas o foco hoje, a discussão da eleição, a gente acredita que existem essas pautas urgentes e que esse deve ser o foco de toda essa discussão em torno das eleições.

 Veiculado originalmente em Infomoney

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